domingo, 18 de agosto de 2013

Amor América (1400)

Antes do chinó e do fraque
foram os rios, rios arteriais:
foram as cordilheiras, em cuja vaga puída
o condor ou a neve pareciam imóveis:
foi a umidade e a mata, o trovão
sem nome ainda, as pampas planetárias.

O homem terra foi, vasilha, pálpebra
do barro trêmulo, forma de argila,
foi cântaro caraíba, pedra chibcha, *
taça imperial ou sílica araucana. **
Terno e sangrento foi, porém no punho
de sua arma de cristal umedecido,
as iniciais da terra estavam
escritas.

               Ninguém pôde
recordá-las depois: o vento
as esqueceu, o idioma da água
foi enterrado, as chaves se perderam
ou se inundaram de silêncio ou sangue.

Não se perdeu a vida, irmãos pastorais.
Mas como uma rosa selvagem
caiu uma gota vermelha na floresta
e apagou-se uma lâmpada da terra.

Estou aqui para contar a história.
Da paz do búfalo
até as fustigadas areias
da terra final, nas espumas acumuladas de luz antártica,
e pelas lapas despenhadas
da sombria paz venezuelana,
te busquei, pai meu,
jovem guerreiro de treva e cobre,
oh tu, planta nupcial, cabeleira indomável,
mãe jacaré, pomba metálica.

Eu, incaico do lodo, ***
toquei a pedra e disse:
Quem
me espera? E apertei a mão
sobre um punhado de cristal vazio.
Porém andei entre flores zapotecas
e doce era a luz como um veado,
e era a sombra como uma pálpebra verde.

Terra sem nome, sem América,
estame equinocial, lança de púrpura,
teu aroma me subiu pelas raízes
até a taça que bebia, até a mais delgada
palavra não nascida de minha boca.

(Tradução por Paulo Mendes Campos)

*chibcha: antiga cultura e povo da atual cidade de Bogotá (Colômbia)
**araucana: raça e cultura indígena originária do atual Chile e partes da Argentina.
***incaico do lodo: indígena autêntico.

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